Voltar para homepage
Quem Somos Unidades Serviços Calendário Notícias Como Ajudar Artigos Contato Loja Virtual

Testamento

 

Sinto que o fim se aproxima. Não sei bem o fim de que, mas este sempre insiste em chegar. E fim não significa que acabou, é passagem; transição.
Terminar algo é apenas estabelecer um novo lugar para partir. E términos são fabulosos, basta observar, como agora mesmo o fiz, o crepúsculo. O qual, com uma beleza renascentista, cobre o firmamento para encerar o dia e anunciar o principado da Lua; que, exuberante, aponta para entre os mares das Gerais dissipando a chuva.
Com esta sensação que me vem o desejo de declarar meu testamento. Neste hiato entre um tranquilizante crepúsculo e o amanhecer esclarecedor que declaro cousas que gostaria de dividir com os herdeiros (de Gaia) e aprendizes (assim como eu) que por mim passaram e passam.
Aos antepassados de sangue faço minha eterna reverência por saber que agora (neste lugar) sou o único motivo de sua existência e seu legado.
Aos antepassados do saber e querência dobro meus joelhos, resignado, por revelarem o quão frágil é o conhecimento e quão cômoda é a ignorância.
Assim, repleto de universo, esvazio a mim mesmo em enxurrada de todas as vidas que vivi, merecida ou imerecidamente, pra quem tiver a coragem de ouvir e sentir.
Divido meu Deus! Digo meu não por propriedade, mas por singularidade de feições. Ele se parece com muitos outros únicos Deuses que habitam os seres e os templos. Ora crucificado, ora contemplativo, ora severo... Porém, invariavelmente, Feliz!!!
Deixo um Deus sem as amarras das religiões, não por sem melhor, mas é o que consigo, por hora, entregar pra quem quer que seja.
E como reflexo desta parte divina, partilho meus amores.
Ah! Como amo e como amei nesta equilibrada fração de século. Ainda quero mais, se permitido me for.
Amei e amo de maneiras que não imaginava possíveis. Misturei muitos elementos no caldeirão do meu peito numa alquimia que gerou a vastidão de possibilidades; limitada pelo compasso do chronus e ameaça de feridas.
Amei as descobertas por entre as cobertas. As paisagens incrustadas na memória de perfeitos relevos e vales por onde passearam minhas curiosas mãos.
Amei sorrisos espontâneos que dei ao invocar os nomes que me percorrem e em mim deixaram seu significado.
Amei coisas, sabores, lugares, símbolos, cheiros, letras, canções e ruídos. Tudo o que seja capaz de trazer à tona a lembrança de todos os amores que escolhi e os que me escolheram.
Entrego ainda minhas retinas e com elas o registro dos mirantes por que passei. Carrego nelas o belo e o insano que me apontaram ladeira acima.
Privilegiadas, guardam contornos de brancas orquídeas, a vastidão do sol rasgando as águas do Atlântico, cores que não sei nomear, sorrisos e lágrimas que me provocaram prazer e dores indescritíveis.
A vista da poeira contra o brilho de um raio de sol, ou o mesmo sol abrindo espaço por entre as nuvens de chuva e projetando o arco de muitas cores no horizonte.
As luzes que oscilam no espaço. O verde... Não é minha cor predileta, mas é a que me trás as melhores sensações.
Os olhos que mirei... tantos que trouxeram colorido pro cotidiano e outros que desfiguraram o dia.
Mosaicos de gente, fúria da natureza, relâmpagos, telas, palcos, lingeries, corredeira de rio e cascata, curvas de estrada de terra, ipês amarelos,
Letras que me trouxeram saberes e emoções: aprendizado.
Meus sons não são só dos pássaros que soa demasiado breve. Os mais agudos estão nas cordas de um certo violino; os mais seguros na mistura das vozes da cozinha, os de maior profundidade estão na infantil risada do mais velho e no vocativo que o mais novo usava.
O mais determinante é um inconfundível: Oi!
E ainda temos as canções e todas as vozes que me invadem para construir e desconstruir histórias. Ouso nomear os moços da esquina, os dos festivais e os dos idiomas distantes. Poetas de tamanha intensidade que moram nos tímpanos que vibram ao seu som.
Chuva na janela, orquestras, a maré baixa, estalo de lenha, os passos de meu pai, cachoeira, apito de bule, aplausos, o grito alvo e negro, os trilhos, cuco e carrilhão, o hino, trovões, o silêncio.
Dos temperos que experimentei partilho os que meus lábios provaram por eles mesmos e os que suguei de outros.
Não são os sabores que me nutriram os que mais oferto. Oferto a presença dos olhares que dividiram tantos desses sabores comigo; em especial o calor e entusiasmo do café.
Oferto as prolongadas conversas que organizaram minhas ideias e desajustaram meus sentimentos.
Há outros gostos que preciso dividir. Alguns angustiantes das derrotas e fracassos que amargaram; alguns dos dias em que a conquista e vitória resplandeciam.
Os aromas! Ah! Os aromas!!! São tantos os cheiros que me remetem a momentos de paraíso que, de fato, não há como escrevê-los.
A torrefação, terra molhada, alho e sal na panela, alfazema, vick vaporupi (nem sei se é assim que escreve), folha de eucalipto, água fresca e suor, chá de erva cidreira, gelol, álcool com arnica, óleo de máquina de costura, chimarrão, “mixirica”, pinho sol, dama da noite na rua, vela acesa, suor e cio.
O toque! A navegação dos meus dedos é mais efetiva por entre melenas. Essas são suas melhores lembranças.
Contornos: de cadeiras, flores, faces, xícaras, livros, talheres, quadris, botões, peças do xadrez, cálices, rolhas, mãos e pés, canetas, janelas,
Têm ainda a firmeza da madeira da mesa de jantar, a maciez do papel que hora escrevo, a textura do pêssego, o visgo das rosas, areia nos pés, meia nova, o calor das mãos de minha mãe (tranquilizantes), a brisa da montanha, o sopro da voz no ouvido, unhas na nuca, lençol limpo.
Os abraços... Quantos bons, demorados, confortáveis, trêmulos, suados, afáveis, saudosos e sofridos... abraços. Uns de partida, outros de reencontro.
Deixo os beijos que distribuí e os que, orgulhoso, trago na face de tantas amizades e de tantas vontades.
Sou testamenteiro de lembranças. Memórias estas que possam, apaziguar seus dias e inspirar sua próprias experimentações pra produzir novas memórias.
É o que deixo.
O que vivo é o que coleciono.
E minhas coleções: divido!

 
  Elimar Silva Melo
Conferencista Mestre em Administração Estratégica, Consultor de empresas nas áreas de Marketing Educacional, Professor de Gestão Estratégica e Integrante do Jurassic Prodes

Artigo publicado em 23/01/2014


Voltar para página anterior
Associação Família de Caná
R. Henrique Gorceix, 80 | Padre Eustáquio | Belo Horizonte/MG | 30720-416
Telefone: (31) 3462-9221 | E-mail: familiadecana@ig.com.br